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“Eu não gosto de velório”

Ouvi esta frase novamente. E de tanto ouvir resolvi me manifestar.
Eu também não gosto de velórios. Ninguém em seu juízo perfeito gosta. Os que gostam têm problemas, acredite…

Vai-se a velórios porque as pessoas que estão enlutadas precisam encontrar em nós, amigos e familiares, um mínimo de conforto, solidariedade e compaixão.
Perder alguém que se ama é um dos momentos mais difíceis da vida e, assim como na doença, o melhor é não ter que passar por isto sozinho.

A morte de alguém amado desperta em nós um sentimento de orfandade, de sentir-se sozinho, perdido, desamparado. Tudo o que não se precisa nesta hora é ser abandonado por aqueles que deveriam estar conosco. As pessoas se justificam dizendo que não sabem o que falar, que por isto é tão difícil ir. Bem, não há fórmula mágica para isto. A morte nos deixa perplexos, impactados e às vezes calados. Noto que na doença as pessoas são mais solidárias. “Ele vai ficar bem, vai dar tudo certo” costumam dizer, ignorando que muitas vezes a doença só vai ceder lugar à morte. Enquanto há vida há consolo, parecem pensar. Na morte não há muito o que dizer. Até os mais solidários e falantes podem emudecer.

Para quem perdeu alguém amado faz muita diferença receber a presença, o abraço e o carinho de familiares e amigos. Não foram poucas vezes que ouvi de pessoas enlutadas estas frases: “ele não me disse nada, mas o abraço que me deu me disse tudo o que eu precisava saber. O abraço me disse: eu estou aqui, tu não estás sozinho.”

No velório lidamos com a materialização da morte – nos conectamos com nossa própria finitude e com a certeza da finitude de quem amamos. Vivemos negando a morte. Isso, em certa medida, é saudável ou não levantaríamos da cama por medo dela. A morte de alguém próximo nos arranca da negação. E temos que encarar isto. Isto não quer dizer que você precise ver o morto, ficar ao lado da família junto ao caixão ou algo do gênero. Ver ou não ver é opção. Não ir, não.

Se você não pode ir ao velório porque está longe, telefone. Não mande mensagem, muito menos e-mail. Telefone. Não sabe o que dizer? Diga o óbvio. Diga que você soube o que aconteceu e lamenta muito. E deixe a pessoa falar, contar o que quiser – se ela quiser. Fale o que seu coração mandar. Simples. Se ela quiser, ela fala. Se ela quiser atender ao telefone, ela atende. Não fique chateado se ela não atender. Ela saberá que você ligou. Lembre-se que a opção é dela de conduzir a situação como tiver forças para fazer.

São inúmeras as vezes em que ouvi em velórios: “quanta gente veio aqui pra se despedir dele, ele era muito querido” referindo-se a quem morreu. Isto de certa forma consola, como se a vida do nosso ente querido não tivesse sido em vão. Muitas pessoas já me disseram “é bom saber que tanta gente se importa comigo e veio prestar solidariedade na pior hora da minha vida”.

Pode não parecer, mas um simples olhar pode funcionar como um abraço carinhoso numa hora dessas. Um olhar que diz “eu sei que é horrível e sinto muito. Eu estou aqui”.

Tenho minha experiência pessoal: meus filhos até hoje lembram com carinho da quantidade -e qualidade- das pessoas que foram se despedir do pai deles. Eles jamais esquecerão os abraços, as palavras, o carinho que receberam. Ambos me disseram que ouviram histórias de amigos de infância e de faculdade do pai, histórias estas que os fizeram conhecer um pouco mais sobre ele e admirá-lo ainda mais. Isto os confortou de alguma forma.

Algumas pessoas me dizem que ficam constrangidas e que não sabem o que dizer nessas horas, como se tomassem para si a missão de tirar a dor com palavras. Não se pode imaginar que nossas palavras tenham tanto poder. Nenhuma palavra tem. Carinho e presença confortam muito mais do que palavras desajeitadas podem aliviar ou constranger. Diga o que você puder e se puder, mas vá. Palavras, mesmo que titubeantes ou sem sentido, são passíveis de serem contextualizadas pelo momento difícil. Sua ausência não pode se valer da mesma desculpa.

Quando você pensar em não ir a um velório “porque você não gosta” e sequer telefonar para seu amigo ou familiar enlutado “porque está muito ocupado e quando viu já era tarde”, ou porque “não se trata deste assunto ao telefone”, compreenda que você está com medo. Estas desculpas, que num primeiro momento podem lhe parecer um bom álibi ou salvo conduto para escapar da situação, rapidamente caem por terra quando você refletir que seus amores também não são imortais. Você vai precisar desta solidariedade mais cedo ou mais tarde.

Tudo na vida é uma via de mão dupla. Vista sua roupa de gente grande e vá. E pare de ser condescendente com você.


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